Reciclagem de materiais ferrosos no Brasil: um retrato da cadeia produtiva

A reciclagem de materiais ferrosos é um dos pilares da economia circular no Brasil e desempenha papel estratégico para a indústria, a sustentabilidade e a geração de valor econômico. Inserido no comércio atacadista de resíduos e sucatas, o setor como um todo reúne mais de 8,5 mil empresas, 65 mil trabalhadores, e movimenta cerca de 33,7 bilhões de reais anualmente.
Em outubro do último ano, durante a Eco Expo Brasil, o Grupo MaxiQuim, em parceria com o INESFA, apresentou o estudo “Panorama Anual de Monitoramento e Avaliação dos Indicadores de Materiais Ferrosos no Brasil – Ano Base 2024”. Inédito no país, o levantamento foi construído a partir de ampla pesquisa com os recicladores juntamente com a consolidação de dados oficiais dos setores correlatos, oferecendo um retrato técnico e atualizado da cadeia de reciclagem de ferro e aço no Brasil.
A cadeia de reciclagem de materiais ferrosos abrange uma grande diversidade de atores e processos, até que a sucata, uma matéria-prima reciclável, seja transformada em matéria-prima reciclada, apta ao uso por siderúrgicas e fundições em substituição ao material virgem.
Podemos segmentar a sucata em três categorias principais (geração interna, industrial e obsolescência), sendo que cada uma delas difere quanto a origem, composição e homogeneidade, e assim, demandam estratégias distintas de recuperação.
A sucata de geração interna é aquela originada dentro do próprio processo produtivo das siderúrgicas, sendo reinserida nos fornos. Esse tipo de material não passa por um processo de descarte, e assim, não demanda a recuperação. Já a sucata industrial é gerada durante processos metalúrgicos, como estamparia e usinagem, e caracteriza-se por elevada homogeneidade, baixa contaminação e composição conhecida, o que lhe confere alto valor agregado. Por fim, a sucata de obsolescência decorre do descarte de produtos de aço ao final de sua vida útil, como eletrodomésticos, veículos, máquinas e estruturas provenientes de demolições.
É principalmente na sucata de obsolescência e na sucata industrial que atuam os recicladores, exercendo papel essencial para a recuperação do material. A dinâmica de coleta desses dois tipos é distinta: enquanto a sucata industrial apresenta geração concentrada, facilitando a logística de recuperação, a sucata de obsolescência é altamente pulverizada, exigindo sistemas mais complexos de coleta, triagem e classificação, com forte participação de catadores, cooperativas, centros de triagem e processadores.
Para que a sucata ferrosa possa efetivamente retornar à cadeia produtiva, na forma de matéria prima reciclada, o trabalho dos recicladores é indispensável. São eles os responsáveis pela preparação e beneficiamento do material, por meio de etapas como classificação, corte, prensagem e trituração, garantindo que a sucata atenda às especificações exigidas pelos consumidores finais.
A principal destinação da matéria prima reciclada são as siderúrgicas e fundições, com destaque para as usinas siderúrgicas semi-integradas, que operam com fornos elétricos e utilizam a sucata como principal insumo. Esse modelo produtivo tem ganhado relevância ao longo dos últimos anos e é fundamental para o aumento da sustentabilidade do setor siderúrgico brasileiro, ao reduzir o consumo de matérias-primas virgens, a demanda energética e as emissões de gases de efeito estufa. No brasil, das 33,9 milhões de toneladas de aço bruto produzidas em 2024, 23,5% da produção foi realizada via fornos elétricos (IABr). Além disso, nos últimos 10 anos, a produção de aço apresentou crescimento de 1,7%, enquanto a produção via fornos elétricos aumentou 17,8%.
No que se refere à recuperação de sucata, o estudo aponta que 9,1 milhões de toneladas de sucata industrial e de obsolescência foram consumidas por siderúrgicas e fundições brasileiras, além da exportação de 691 mil toneladas, evidenciando a relevância do mercado interno e a complementaridade das vendas externas no escoamento do material recuperado.
Do ponto de vista ambiental, os benefícios são expressivos: a produção de aço a partir de sucata pode reduzir o consumo de energia e as emissões de CO₂ em até 74% e 67%, respectivamente, quando comparada à rota tradicional baseada no minério de ferro. Assim, a reciclagem de materiais ferrosos contribui diretamente para os compromissos climáticos e para a descarbonização da indústria.
O estudo também evidencia a relevância econômica dos sucateiros (recicladores) dentro da cadeia. Mais de 60% da sucata consumida por siderúrgicas e fundições passaram por esse elo, que atua tanto na reciclagem de sucata industrial quanto de obsolescência. E além de sua função operacional, os sucateiros são responsáveis por movimentar volumes expressivos de recursos financeiros, além de interligar diferentes elos (indústrias, catadores, cooperativas e outros), reforçando sua importância para a economia do setor.
No cenário internacional, o Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de aço, mas ainda apresenta uma relação entre consumo de sucata e produção de aço inferior à observada em economias como União Europeia, Estados Unidos e Turquia. Esse dado evidencia o potencial de crescimento da reciclagem de materiais ferrosos no país, especialmente por meio da ampliação da capacidade instalada de fornos elétricos e do fortalecimento dos sistemas de coleta e processamento de sucata.
Em síntese, a reciclagem de materiais ferrosos no Brasil é uma atividade estratégica, que integra desenvolvimento econômico, geração de empregos e ganhos ambientais, e possui amplo espaço para evolução nos próximos anos.


